terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Poema de Klessya Santos


O desejo de uma miserável: Não usar mais camisas

Despertar Sr. Escritor?
Só se fizermos um trato!
Eu disperto do meu sonho.
E tu da tua realidade!

Este é um estado incólume.
Acordar não me fará feliz.
Nem carpir o chão,
Me fará valorizar a camisa que apenas no corpo eu usei.

Minha camisa talvez valha muito.
Eu a uso. Para esconder a miséria de um corpo sonhador.
Os olhos mortais se assustam. Mas nós os sonhadores,
Trazemos cicatrizes no corpo. A vida nos açoita noite e dia.

Maldição dessa realidade.
Desespero dos miseráveis ao meu lado.
Não é um lamento disfarçado de revolta.
É a revolta disfarçada de lamento.

E sim senhor Escritor.
Aqui deste lado voam anjos com uma asa só.
Aqui é tudo miséria,
Não a miséria da fome, nem a miséria do esbanjador.
Aqui a miséria é ferida na alma de uma classe: o sonhador.

E aqui a miséria é o sonho,
A calamidade é querer.
E ter tantos muros a nos conter.
Aqui o mundo é o complexo de Quixote.
Aqui as cotovias assobiam seu canto de dor.

E a fuga, qual mais seria a fuga? A tua realidade que tudo realiza?!
Não poder talvez seja nossa miséria, a minha!
E por isso eu sou esta miserável sonhadora que julgas.
Papel em branco e lápis na mão.
Eu vou escrever a tua realidade.

Ah Sr. Escritor,
Não vês tu que os que me destruíram estão em todo lugar.
Suspeito que também estão à tua espreita.
A questão é: Tu também te tornarás um miserável?
Eles vão sugar a tua certeza.
E te fazer vestir uma camisa... de alto valor!

Ah caro Escritor,
Se chover, se eu chover...
Haverá enxurrada de sonhos  não realizados,
Haverá tempestades de dor...
Haverá milhares miseráveis de amor.

Deixa eu nublar e nublar
Não é egoísmo. Não quero apenas mirar a minha face fria.
É esse espelho emoldurado,
A minha caixa de pandora.
Não toque!

Eles me condenaram, como tu também o fazes
Deixa-me eu contar o que vi.
Eu vi amor fraudado! – Miserável!
Eu vi homens tornarem-se animais. –Miseráveis.
Eu vi mulheres tornarem-se vazias. –Miseráveis.
Eu vi construírem a prisão,
Esta prisão de julgamentos.
De risos e escárnios.

Eles me apontaram o dedo,
Me jogaram areia nos olhos e gritaram.
Tola sonhadora- és uma miserável.

Eu canto pois é salvação.
Não a minha.
Mas é o sonho,
De que este canto seja a salvação
De alguém.

As árvores morreram...
A humanidade é assim.
Mata tudo que é vida,
Julga tudo que é felicidade
Encarcera tudo que é liberdade!

Quer colecionar quadros nas paredes,
Cadeiras lustrosas e mortas para sentar.
Não há árvores meu caro Escritor.
Essa é a realidade que eu não quero enxergar.

Mas eu sonho. E esta é a minha miséria
Sonho que minhas tímidas sementes verdes,
Venham a brotar.
Quem sabe?

Estou completamente assustada.
Lá fora o mundo agride!
E eu só tenho uma asa para voar!
Se eu levar minha caixa de pandora, temo trazer o caos.

Talvez, talvez eu me renda e disperte,
Não me interessam os aplausos.
Essa noite eu vou acordar,
Apenas para ver se eu posso me encontrar,
Verdadeiramente sem camisa.

Klessya Santos

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